Samba no pé e contas atrasadas na mão. Há pouco mais de dois meses do carnaval, as escolas de samba enfrentam dificuldades para colocar a festa na rua. O corte de 50% na subvenção, feito pelo prefeito Marcelo Crivella, e a demora para a liberação da verba prejudicam o cronograma e exigem criatividade também para conquistar parcerias. Se as agremiações do Grupo Especial tiveram de pisar no freio, as participantes das séries A à E enfrentam ainda mais adversidades para desfilar, na Estrada Intendente Magalhães.

De volta à série B, a Unidos das Vargens faz o que pode para não se atrapalhar no quesito evolução e conseguir cair na folia em fevereiro. Com as contas no vermelho, o jeito é economizar no que pode. O apoio de comerciantes da região, as doações de fantasias antigas de escolas como a Vila Isabel e os investimentos do próprio bolso de alguns diretores têm ajudado.

A agremiação, sem uma quadra própria, tem guardado parte de seu material na sede da Associação de Moradores e Amigos de Vargem Grande.

— A prefeitura fez a determinação de corte (na subvenção) das escolas e quem mais sofreu foram as menores. As do Grupo Especial arrumaram o dinheiro com patrocinadores. Nós não temos visibilidade. Estamos esquecidos. Temos que nos virar para fazer um bom carnaval — salienta o presidente da Unidos das Vargens, Ronaldo Fernandes. — Em média, botar o carnaval na Avenida custa entre R$ 150 mil e R$ 200 mil e exige uma mobilização monstruosa.

O prazo apertado tem forçado os integrantes da escola a rebolarem para comprar os itens mais urgentes. No fim do ano, os preços de muitos artigos ficam mais altos, o que faz inchar o orçamento. O reúso de materiais como plumas, doados por agremiações maiores, ameniza os gastos; porém, ainda é preciso se preocupar com a verba para pagar as costureiras e os demais funcionários — valores, em sua maioria das vezes, acertados antes de a prefeitura anunciar que iria reduzir a subvenção à metade.

A equipe da Renascer de Jacarepaguá: material reciclado no enredo sobre Villa-Lobos – Bárbara Lopes / Agência O Globo

O carnavalesco Lane Santana, pelo segundo ano na escola, diz que a criatividade tem sido mesmo o principal material para realizar o carnaval. Na linha de produção, as alas com roupas e adereços mais trabalhosos, como a das baianas e a bateria, têm prioridade. Ainda assim, nenhuma está pronta.

— A falta de dinheiro dificulta muito, mas a força do pessoal ajuda. Todas as escolas estão tendo mais dificuldade este ano, mas acredito que mesmo assim a turma do carnaval vai fazer um bom trabalho — diz, otimista.

A Unidos das Vargens vai desfilar, em 13 de fevereiro, com o enredo “Na semente de Oxum e Odé… O equilíbrio, a paz e a beleza do amor”, e ainda sonha com a ascensão.

— Sempre enfrentamos dificuldades; o dinheiro nunca foi suficiente para cobrir as despesas, mas a situação era um pouco mais tranquila — conta o presidente. — Apesar disso, temos expectativa de subir para a Série A. Faremos um carnaval bonito, com certeza. Vamos para a briga, não estamos desanimados.

Única escola de samba da região a desfilar no Sambódromo, no Centro do Rio, na Série A, a Renascer de Jacarepaguá enfrentou ainda mais contratempos. Seu barracão, no Santo Cristo, na Zona Portuária, pegou fogo duas vezes, em 28 de junho e 10 de agosto, causando perda de material.

Para viabilizar o enredo “De flechas e de lobos”, sobre Villa-Lobos, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres estão abusando de materiais reciclados. A folhagem da Amazônia, por exemplo, será reproduzida com garrafas PET.

— Estamos usando material alternativo pelo custo. Mas nada que vá atrapalhar o nosso projeto. Acho que aí entra o trabalho artístico — diz Rangel.

‘ESTE É O CARNAVAL DA SUPERAÇÃO’

A verba reduzida é parte da realidade das agremiações menores há tempos. Quanto mais longe estão do Grupo Especial, mais economia precisam fazer. Ney Lopes, diretor e presidente da União de Jacarepaguá, é direto: “Este é o carnaval da superação, mesmo”.

O carnavalesco Lane Santana com material para fantasias da Unidos das Vargens – Domingos Peixoto / Agência O Globo

A festa de 61 anos da escola, em 15 de novembro, gerou verba para o pagamento das contas de água e luz da quadra, que estavam em atraso, e para a compra de tecidos. Isso só foi possível graças à solidariedade de integrantes que ajudaram a bancar a comemoração. As baianas doaram o bolo; e a bateria, a comida. Os compositores pagaram o som.

A escola, que desceu para a Série D, neste carnaval conta com subvenção de R$ 23 mil. Para vestir os 550 componentes e criar um carro alegórico e um tripé, é preciso apertar o cinto e contar com a compreensão de fornecedores e integrantes.

— Não dá para fazer carnaval assim. Só na roupa de mestre-sala e porta-bandeira vai quase todo esse dinheiro (da subvenção). Fora outros gastos no dia do desfile, como reboque, coreógrafo, comissão de frente, carro de som. Estamos chamando cada um para conversar. Nunca deixamos de pagar, e as pessoas estão compreendendo. Assim, conseguimos levar — conta Lopes.

Inspirado no enredo da própria agremiação, “Caruaru, terra da alegria e do São João mais arretado do Brasil”, sobre a festa no município pernambucano, o presidente vislumbra um futuro promissor:

— As pessoas não abandonam a escola desde que ela estava no Grupo A. Os componentes, apesar das dificuldades, estão animados. Acreditamos até o fim em dia melhores.

A Mocidade Unida da Cidade de Deus, que desceu para a Série E, está habituada a dar cara nova a itens doados por parceiros e pessoas da comunidade. As agremiações no grupo não têm subvenção. A solução é arrecadar e poupar a verba como for possível. A expressão “do lixo ao luxo” é o mantra para dar forma às ideias, conta o cenógrafo e carnavalesco, Guto Carrilho.

— É quase como um teste de criatividade. E a vida é assim mesmo. Tudo é desafio, superação. Fazer um carnaval é bem isso — acredita.

Em fevereiro, a escola leva para a Estrada Intendente Magalhães a história de Arnaldo Niskier, jornalista, professor e escritor imortal da Academia Brasileira de Letras. Para ilustrar o enredo “Eu prefiro ser essa biblioteca ambulante”, terá 12 alas, um tripé e um carro alegórico, que corre o risco de ficar sem ter onde estacionar. A alegoria fica guardada num espaço em Campinho, com aluguel de R$ 6 mil anuais. Se o valor não for quitado, será preciso deixar o local até amanhã. Neste caso, haveria novos gastos, como aluguel de reboque para tirar o carro alegórico do depósito e levá-lo para a rua no dia do desfile.

Para pagar esta e outras despesas, a escola promove eventos em sua quadra. A dificuldade aumenta, conta a vice-presidente da Mocidade Unida, Martha Moraes, quando os encontros são cancelados devido a ações policiais no entorno:

— Deixamos de fazer a programação porque pode haver tiroteio. As escolas do Grupo Especial dizem que estão com dificuldade. Imagine nós aqui, numa comunidade enorme, com uma quadra belíssima, mas numa área dita perigosa.

O presidente da Mocidade Unida, José Carlos Melo, diz que conta com o apoio da comunidade contra a escassez:

— Os componentes têm colaborado sem cobrar nada, de nenhuma forma. Todos focam em fazer um bom desfile.

Procurada, a Riotur afirma que os cortes na subvenção foram consequência da crise do estado e que os chamamentos públicos visando à arrecadação de recursos da iniciativa privada para ajudar a financiar o carnaval também poderão favorecer os desfiles na Intendente Magalhães.

 

Fonte: Jornal O Globo, de 30/11/2017

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